domingo, 5 de fevereiro de 2017

Hóspedes da Memória

















Em 1996 a Praça da Matriz, em Atibaia, passou por mais uma reforma. Foram inúmeras. A harmonia visual da nova praça era quebrada por uma enorme parede branca, bem atrás do coreto, que teimava em chamar mais atenção que a própria praça. O que era incomodo, logo virou objeto de especulação entre artistas e frequentadores do espaço. Alguns diziam que a parede receberia um desenho de grafiteiros santistas, outros que um artista da cidade faria uma pintura no local. Soube mais tarde que a primeira ideia foi prontamente descartada: Tinham medo que o grafite incentivasse as pichações no entorno da praça, muito comum na época. E assim, branco, o muro permaneceu durante toda a reforma da praça. Um dia o amigo Eduardo de Barros, o Barrox, apareceu em casa. Tinha sido convidado por alguém da Prefeitura para ocupar o espaço. Eu, dias antes, também havia recebido o mesmo convite. O primeiro artista convidado era nosso amigo em comum, Inácio Rodrígues, que por algum motivo não aceitou fazer. E assim, como não poderia deixar de ser, nos juntamos e tomamos a iniciativa de realizar o trabalho - eu, Barrox e o Inácio. Cachê acertado, logo começamos a pensar no projeto. Todas as ideias iniciais foram descartadas quando Barrox apresentou a sugestão de pintar no muro a fachada do antigo prédio que ali existiu, e que havia sido demolido na década de setenta: o Hotel Municipal. Após pesquisas e estudos preliminares começamos o trabalho. A Prefeitura tinha pressa. A praça seria inaugurada em setembro pelo Prefeito Flávio Callegari. Estávamos no fim de julho, inicio de agosto. A ideia não era fazer uma simples pintura retratando o Hotel, e sim um “trompe-l’oeil”, técnica artística que através de truques de perspectivas, cria uma ilusão de ótica que valoriza o efeito tridimensional, dando um aspecto mais real à imagem. Os primeiros rabiscos foram demarcados através de desenhos que projetamos na parede, numa fria noite de inverno. Pronto o desenho, iniciamos o longo vai e vem, sobe e desce, monta e desmonta andaime até que as primeiras imagens do antigo hotel surgissem na parede. Com ela moradores da cidade passaram a acompanhar o trabalho com curiosidade e a relatar antigas histórias vividas ali ou nas proximidades. Os moradores mais antigos eram os mais entusiasmados. Foram vários depoimentos de pessoas que viam naquela pintura a oportunidade de rever e rememorar a velha Atibaia de seus tempos de infância ou mocidade. Depoimentos curiosos, engraçados, fantasiosos, mas todos carregados de forte carga emotiva. Uma pena que essas conversas ficaram sem registro.  Na época não era como hoje, que qualquer celular filma ou grava. O único registro existente desse trabalho foi feito pelo amigo Euclides Sandoval. Euclides, munido de uma filmadora VHS e muita sensibilidade, registrou nosso trabalho e colheu o depoimento do Sr. Romualdo Alóia, que passava pela praça naquele dia. No prazo previsto o trabalho foi entregue e a praça inaugurada. Fomos elogiados pelo serviço, que a despeito de alguns pessimistas, não foi pichado como previam. Pelo contrário, havia enorme respeito pela pintura por parte dos próprios pichadores, reforçada pela população vizinha da praça que “tomavam conta” do trabalho. Uma única interferência apareceu logo nos primeiros meses depois de sua inauguração: a palavra “Osasco”, rabiscado no rodapé da pintura e ali permaneceu durante os 18 anos de sua existência. A pintura nunca passou por manutenção. A fita VHS que continha a gravação feita pelo Euclides, permaneceu guardado com ele durante anos. Um dia Euclides me presenteia o material. Ao revê-la percebi que tinha em mãos um rico material de registro da cidade e sua história. Alguma coisa precisava ser feita. Esporadicamente já fotografava o painel, mas com isso passei a registrar com mais empenho, filmando também as reformas que posteriormente ocorreram na praça. Ao registrar a derradeira imagem, que foi a derrubada da pintura, passei a juntar o material e editar o vídeo Hóspedes da Memória. Embora assine a edição, eu deveria incluir nele o amigo Euclides Sandoval. Foi ele, sem saber, o grande motivador desse trabalho e o responsável pelas imagens que mais me agradam: o depoimento do Sr. Romualdo Alóia. Ao Euclides dedico esse vídeo. Dedico também a Dona Diva Passador, que lá atrás, em 1996, ao ver a pintura surgindo na parede comentou:
- Se não tivessem demolido o Hotel, hoje não haveria a pintura.
É a vida que segue.
Se não tivessem demolido a pintura, hoje não haveria o vídeo.

Márcio Zago

Para acessar o vídeo clique aqui.

Fotos abaixo (1996): Eduardo de Barros (Barrox)









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