segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Abstrações, de R.F. Lucchetti - um dos pioneiros da animação nacional.



Até anos atrás conhecer a pessoa certa, na hora certa, dependia de sorte e predestinação.  As redes sociais bagunçou essa ordem. Hoje podemos conhecer pessoas de nosso interesse sem sair de casa, basta um click! Amigos que adicionamos a tantos outros que provavelmente nunca iremos ouvir sua voz ou conhecer seu jeito, mas que acabamos tendo afinidade, respeito e consideração como um velho amigo “olho no olho”. Foi assim que conheci Rubens Francisco Lucchetti. Seu Rubens é completo como artista: desenha, pinta, escreve roteiro para história em quadrinhos, para cinema, autor de inúmeros livros, homem de rádio, televisão, cinema. Seria mais fácil descobrir o que ele não fez, do que enumerar suas aptidões.  Seu Rubens tem uma visão estética do mundo e domina, como ninguém, as ferramentas das diversas linguagens. Coisa rara. Mais rara ainda quando se descobre que esses múltiplos talentos são intuitivos, como de dois outros artistas que admiro e que também não tinham diplomas na parede: André Carneiro e Jerônymo Monteiro. Fato que comprova inteligência e genialidade artística.

Jerônymo Monteiro é considerado o pai da ficção científica no Brasil, e criador do detetive Dick Peter, ícone da literatura policial, além de radialista, editor, etc. André Carneiro, meu conterrâneo, é o mais prestigiado escritor de ficção científica no Brasil, e se não foi o primeiro a escrever ficção científica, foi o que elevou esse gênero a categoria de arte. André também foi poeta, fotografo, artista plástico, cineasta, etc. Em comum, além do fato de não terem formação acadêmica, os três possuem talentos para diferentes linguagens artísticas. Mais ainda, são semelhantes pelo fato de serem tão poucos conhecidos e reconhecidos pelo trabalho que fazem e fizeram... Coisas do Brasil.

Películas originais.
Voltando ao Seu Rubens, não saberia colocar aqui todas suas realizações, pois descubro sempre nova faceta a cada matéria que leio e cada entrevista que vejo. Ele é o roteirista dos filmes Os Sete Vampiros, O Escorpião Escarlate, O Segredo da Múmia, todos do cineasta Ivan Cardoso. Para o Zé do Caixão roteirizou O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Ritual de Sádicos, Exorcismo Negro e Delírios de um Anormal. Na História em quadrinhos nacional, é a história viva da própria linguagem. Criador de clássicos como A Cripta e da versão quadrinizada do Zé do Caixão, além de roteirista de séries como Juvêncio, O Gato, O Homem do Sapato Branco e tantos outros. Na literatura é considerado o mestre da Pulp Fiction, escrevendo para revistas como X-9, Meia Noite, Mistérios, etc. É o escritor que mais publicou livros no Brasil. Foram mais de mil. Muitos deles usando pseudônimos. Qualquer pesquisa sobre a literatura de horror no Brasil irá cair nos feitos de R.F. Lucchetti, o Lovercravt de Ribeirão Preto, como diz Ivan Cardoso.

Toda essa introdução é na verdade para justificar o fato de eu postar aqui uma das animações realizadas pelo Seu Rubens. Além de todos os trabalhos citados acima, ele ainda é um dos pioneiros da animação no Brasil. Com seu amigo Bassano Vaccarini, inspirado no trabalho de Norman McLaren, seu Rubens realizou uma séria de animações desenhadas diretamente sobre a película. Foram eles que criaram o Centro Experimental de Ribeirão Preto, importante iniciativa da década de sessenta que faz parte da história da animação no Brasil.

Como arte-educador sempre procurei oferecer aos alunos informações que vão além da cultura de massa. Faço isso para descondicioná-los para o processo criativo, apresentando um apanhado histórico das principais obras de cada linguagem. A dificuldade sempre foi encontrar material sobre a animação nacional. Assim, por pura ousadia, tomei coragem de pedir ao amigo virtual Rubens Lucchetti  uma cópia das animações que realizara no Centro Experimental de Ribeirão Preto. Mais que isso, me prontifiquei a restaurá-lo e posta-lo na internet para que mais pessoas pudessem ver. Um dia recebo em casa um DVD com várias animações do Seu Rubens, e junto, uma carta onde conta um pouco a respeito dos filmes e das alterações que deveriam ser feitas. Confesso que assustei...A responsabilidade era grande. Antes de iniciar o tratamento nas imagens, pedi ajuda de amigos com mais conhecimentos técnicos e a opinião de um deles foi fundamental: Daniel Choma me alertou para a necessidade de conservar a ação do tempo como valor estético. Dica fundamental, uma vez que limpá-lo, de maneira asséptica, seria um caos. A técnica de pintar diretamente sobre a película apresenta resultado plástico característico, que pode ser transposto para os dias de hoje com muita facilidade, utilizando somente ferramentas básicas de desenho digital. Muito diferente do processo original, que era um desafio à persistência e a experimentação. E assim foi feito. Nos momentos de folga trabalhava, um a um, os fotogramas da animação (são milhares). A cópia que recebi em DVD foi gerada a partir de fita VHS e não havia som. Depois de limpos, mantendo a “ação do tempo”, coloquei a trilha que imaginei ser mais adequada a imagem, e agora posto no Youtube, como prometido. Tenho em mãos várias animações que estavam no mesmo DVD, e que necessitam passar pelo mesmo processo. É um trabalho de fôlego, que tentei realizar com a maior boa vontade, mas reconheço que a obra merece uma atenção maior. Sinto-me frustrado por isso. O trabalho precisa ser encarado por pessoas especializadas, com equipamentos técnicos adequados e, obviamente, com apoio financeiro. Torço, sinceramente, para que outras pessoas, ou instituições, se animem com a ideia de resgatar essa rica parte de nossa história cinematográfica. Seu Rubens, mais que um amigo virtual querido, é uma lenda viva, que merece todos os esforços para ter seu legado acessível a quem pretenda conhecer nosso país pelo que ele tem de melhor: seus artistas e sua arte.






































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